Viver a rua e reconhecê-la como galeria de arte está cada vez mais certo, ainda mais em São Paulo, onde artistas usam e abusam dos muros e viadutos da cidade para fazer um dos graffitis mais respeitados e originais do mundo.
E uma prova viva dessa nova geração de grandes artistas é André Farkas a.k.a TRECO. Com apenas 26 anos, ele vem despontando no cenário paulistano e nacional com um trabalho que mistura técnicas e linguagens gráficas e que resultam num estilo no mínimo exótico e muito atrativo.
Fizemos contato com ele para entender um pouco mais do seu trabalho e a conversa na íntegra vocês podem conferir abaixo.
Você é formado em artes plásticas, certo? Como foi essa migração para as ruas?
A transição da instituição para o espaço público foi bem natural. Comecei lá na FAAP mesmo, a explorar os espaços comuns da faculdade, como cadeiras, mesas, paredes de corredores e coisas do gênero. Eu comecei a ver que a reação que a intervenção causava no ambiente era muito poderosa e positiva, mesmo que não gostassem do desenho. Era bom porque era diferente do mármore, destoava do shopping center que é aquela faculdade. Depois de um auto-aval moral, eu comecei timidamente a pintar na rua, perto de casa e a coisa foi crescendo.
O que você tenta transmitir com a sua arte?
Com as minhas pinturas eu tento transmitir boas vibrações. Procuro fazer com que o observador, ao ver uma pintura na rua, saia por um segundo da inércia e da hipnose da rotina. Como que refrescando o cérebro do bafo quente e contínuo da mesmice cotidiana. Quero criar uma pequena pane no cérebro do espectador, fazer com que ele veja algo que não entenda num mundo onde tudo é feito para ser entendido tão rapidamente. Gosto de pensar que crio imagens não digeridas, imagens que destoam da paisagem inóspita da cidade. Não que isso seja algo único meu, do TRECO, mas algo que é comum ao graffiti em geral. Resumindo o que eu quero transmitir é VIVA O ESPAÇO PÚBLICO, VIVA A RUA, VEJA A CIDADE, VIVA A CIDADE.
Já foi preso ou teve problemas com a lei?
Eu nunca fui preso, graças a deus. O que aconteceu foi que eu sofri as conseqüências burocráticas e legais de deliberadamente ignorar uma lei ignorante. Uma lei que ignora uma cultura e que está em descompasso com essa cultura. Uma lei que surgiu do medo. A sociedade civil já absorveu o graffiti, o mercado já absorveu o graffiti, a polícia já absorveu o graffiti. Quem não absorveu o graffiti é o cidadão que tem medo, que vive com medo, que vê uma pessoa no espaço público e disca 190.
A polícia não se importa, ela passa. Mas se for pressionada por esse cidadão ávido a usar seu celular ela é forçada a agir. Enquadro é rotina. Se você se expõe na rua, sabendo que existe gente e celulares na cidade, é certo que uma hora a polícia vai aparecer. Mas é por isso também que eu amo o Brasil. Conversa vai, conversa vem, tchau. A lei é inabalável, mas os agentes da lei não são. Se fosse nos E.U.A….
Na arte de rua, quem te inspira?
Na arte de rua eu me inspiro em muita gente. Dos brasileiros, acho bons à beça: Sinhá, Magrela, Zito, Sola, Nunca, Gemeos, Selon, Dedablio, Ethos, Medo, Nove, Thiago Alvin, Vitché, Whyp, Galo Surreal, N, Paulo Ito, Nois Crew, coxas, Caur, ISE, Finok, Calle, Jose, Onio, Lelo e muitos outros. Eu demorei muito para compreender o pixo e não digo que compreendo, porque a realidade e a intenção do pixo é muito diferente da minha. Mas respeito muito o pixo e acho que é um trabalho tipográfico muito preciso, com muita qualidade e muito ignorado.
Onde você vê uma cena de arte de rua forte além de São Paulo?
Eu sou ainda muito ignorante quanto a situação do graffiti em outras cidades brasileiras. Eu sei que no Rio de Janeiro tem uma cena forte e imagino que qualquer cidade grande tenha algo pra mostrar. Mas…. acho que nada se compara ao monstro que é São Paulo. Acho que a cena do graffiti em São Paulo é top no mundo, mostrando tanto as intervenções de cunho mais político e vândalo como o pixo, bomb, tags, etc. Como a dita Arte de Rua, mais aceita, mais comportada e mais “bonitinha”.
Planos para o futuro?
Pretendo continuar pintando por pintar, num descompromisso engajado. Crescer, crescer, mas com a cabeça tranqüila.
O negócio é ficar de olho aberto e aproveitar estes belos trabalhos expostos nas nossas ruas…








